A Odisseia - Crítica | Imperfeito, expositivo e, ainda assim, cinema puro
Christopher Nolan enfrenta o maior desafio da sua carreira com "A Odisseia" e o resultado é arrebatador, ainda que imperfeito... Descobre aqui porquê!
Aos 55 anos, Christopher Nolan é um dos cineastas contemporâneos mais respeitados e um dos poucos que tem a capacidade de atrair espectadores aos cinemas só com a força do seu nome. Adorado pelo público, mas nunca totalmente abraçado pelos Óscares, o momento de convergência chegou finalmente com Oppenheimer.
Depois de conquistar 7 Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador, e mais de 975 milhões nas bilheteiras internacionais, o britânico via-se com carta branca para fazer o que quisesse a seguir. O projeto escolhido foi A Odisseia (The Odyssey).
O obstáculo na jornada da perfeição: A exposição excessiva

Uma adaptação livre do épico de Homero, o filme segue a jornada de Odysseus (Matt Damon), o rei de Ítaca, e a sua tentativa de regressar ao lar após a devastadora Guerra de Tróia. Seguindo a estrutura não linear da obra original, a longa-metragem divide-se em três eixos narrativos distintos: a ilha de Calypso, o cerco de Tróia e a crise política em Ítaca.
Contudo, o equilíbrio entre estes polos revela-se o maior desafio para Christopher Nolan. A primeira hora da obra é prejudicada por um desfile de personagens encarregados de debitar exposição num tom didático e artificial, criando uma barreira imediata na conexão com a história.
Ao longo das quase três horas de duração, a narrativa acaba por encontrar o seu ritmo, mas os diálogos permanecem como o calcanhar de Aquiles da produção: simplificados e excessivamente explicativos.
Matt Damon: O herói atormentado de Nolan

O Odysseus aqui afasta-se da figura astuta e enganadora descrita por Homero. Em vez disso, o realizador aposta num arquétipo moderno, aproximando-o de outros protagonistas da sua filmografia, como o Robert J. Oppenheimer de Cillian Murphy. Este Odysseus é, sobretudo, um homem justo e altruísta, assombrado pelas consequências das suas decisões.
Matt Damon encarna este líder com o carisma e a autoridade que a sua posição exige, mas é na exploração da sua vulnerabilidade que a performance realmente eleva o material. O tormento presente no desempenho de Damon garante que o protagonista se mantenha como o centro emocional da narrativa, sustentando a força da jornada mesmo nos momentos em que o argumento carece da mesma profundidade.
Os altos e baixos do elenco de "A Odisseia"
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Por sua vez, Anne Hathaway acaba traída pelo material. A sua Penélope apresenta-se mais passiva e sofrida do que o habitual, mas a atriz é suficientemente talentosa para contornar estas limitações e imprimir uma marca pessoal, garantindo que o público se importe genuinamente com a sua ânsia pelo regresso de Odysseus. Num registo oposto, John Leguizamo afirma-se como a maior surpresa do elenco. A sua interpretação do leal servo de Odysseus confere uma humanidade palpável à pelíicula, estabelecendo uma empatia imediata e genuína com a audiência.
Em contrapartida, Tom Holland não consegue convencer como Telemachus. O desempenho revela-se demasiado frágil para sustentar um personagem que deveria funcionar como uma das principais âncoras da narrativa.
Uma constelação de estrelas que não consegue brilhar

A fragilidade do casting, contudo, estende-se para lá de Holland. A obviedade das escolhas torna-se particularmente notória com Robert Pattinson, na pele do vilão Antinous. Os seus maneirismos, já demasiado familiares do público, acabam por se tornar uma distração que retira dinamismo às sequências na ilha.
Esta tendência de privilegiar rostos conhecidos reflete uma má gestão do vasto elenco: Nolan povoa o ecrã com estrelas de peso como Zendaya, Charlize Theron e Mia Goth. O resultado, contudo, é uma subaproveitação frustrante. Estas figuras surgem como presenças diminutas, incapazes de deixar a marca que o épico exige. Fica a dúvida: por que insistir em rostos tão icónicos, em vez de apostar em character actors que conferissem maior autenticidade e densidade ao universo?
Aliás, sempre que se afasta do olhar de Odysseus, A Odisseia perde momentum, evidenciando a dificuldade da obra em estabelecer uma conexão pulsante entre a jornada do protagonista e aqueles que o aguardam.
"A Odisseia" sem deuses, o espetáculo sem falhas

Christopher Nolan sempre foi conhecido por ser um cineasta que dá primazia ao realismo. Por isso, quando se soube que iria adaptar um texto com uma carga mitológica tão vasta como A Odisseia, surgiram várias questões sobre como o faria. A solução que o cineasta encontrou foi reduzir a intervenção divina. Esta escolha é acompanhada por uma sensação recorrente de que o realizador não confia plenamente na capacidade do público para se deixar imergir naquele mundo sem explicações constantes.
Em contraste, a conquista técnica é um absoluto primor que faz valer esse “cheque em branco” que o sucesso de Oppenheimer proporcionou. O realizador não poupa em nada e o resultado está todo no ecrã: o meticuloso trabalho de construção de universo, o rigor dos figurinos e a priorização de efeitos práticos deslumbram e engrandecem a experiência. A banda sonora de Ludwig Göransson é, também, um ponto alto, com uma exploração sonora que privilegia os silêncios e a fusão atmosférica.
O ponto de viragem: A cena que define "A Odisseia"

Na intersecção entre o rigor técnico e a tensão narrativa é que reside o momento de viragem do épico: o confronto com Polyphemus (Bill Irwin). Aqui, o cineasta britânico revela uma aptidão até então contida: a capacidade de construir uma cena de terror visceral. Quando Odysseus e os seus homens se encontram, literalmente, na boca do lobo, forçados ao silêncio absoluto para sobreviver, o realizador subverte a escala épica e fecha a narrativa numa gruta.
A atmosfera é construída não pelo que vemos, mas pelo que tememos que aconteça; a criatura torna-se uma ameaça tangível e imprevisível. Ao abdicar do movimento frenético em favor da antecipação, o cineasta força o espectador a habitar o mesmo estado de vigilância exaustiva do grupo. É, sem dúvida, o momento em que a produção começa a engrenar, provando que o ápice de Nolan surge quando o espetáculo visual se alia ao investimento emocional dos personagens.
Veredito: O arrojo épico eclipsa as limitações

No final de tudo, não podemos negar o domínio técnico daquele que é um cineasta no seu auge. Christopher Nolan tem os recursos, a equipa e a ambição para filmar em escala épica, mas também tem o talento para executar a sua visão com precisão.
É verdade que nem todos os desempenhos são brilhantes e alguns diálogos causam urticária, mas quando a película termina, nós estamos totalmente investidos na jornada do nosso herói. O cineasta tem-nos na palma da mão e, de repente, todas as queixas e problemas tornam-se secundárias; e o que fica... é o cinema.
Nota: 8/10
Filme: A Odisseia (The Odyssey)
Lançado em: 2026
País de origem: Estados Unidos/Reino Unido
Realizador: Christopher Nolan
Escrito por: Christopher Nolan
Elenco: Matt Damon, Anne Hathaway, John Leguizamo, Tom Holland, Robert Pattinson, Zendaya, Charlize Theron, Mia Goth
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