"A Odisseia" | 5 diferenças entre o épico de Christopher Nolan e o poema de Homero
Christopher Nolan levou ao grande ecrã a sua adaptação de 'A Odisseia'... Estas são as principais alterações feitas ao texto de Homero!
A Odisseia, de Christopher Nolan, continua a dominar os cinemas mundiais. Baseado no épico homónimo de Homero, o filme conta a história de Odysseus (em português: Ulisses), o rei de Ítaca, que embarca numa jornada de regresso a casa após a Guerra de Troia.
Apesar de se apresentar como uma adaptação, a obra toma várias liberdades, saltando capítulos e criando novas dinâmicas entre personagens. Eis cinco das principais diferenças entre Homero e o épico de Christopher Nolan:
A intervenção divina reduzida
No poema de Homero, as divindades controlam e condicionam cada passo da viagem. No filme, essa interferência divina foi quase totalmente eliminada: deuses como Zeus, Poseidon ou Hermes desaparecem, enquanto Atena (Zendaya) surge de forma muito discreta.
“Para mim, ter estes deuses distantes com peças de xadrez ou o que quer que seja, todas aquelas coisas que já se viram no passado, parecia alienante. Não se trata tanto de tentar ser realista; trata-se apenas de tentar ver os deuses da forma como estas personagens os teriam visto"
- Christopher Nolan, Vulture
Um Odisseu atormentado e fiel à família

No poema original, Odysseus (Matt Damon) é célebre pela sua astúcia calculista e por recorrer habitualmente ao engano. Na versão de Christopher Nolan, o protagonista assume uma posição muito mais justa, altruísta e profundamente atormentada pelo peso moral das suas ações, distanciando-se do arquétipo clássico.
Devido a esta culpa e aos traumas por resolver, Odysseus torna-se um homem totalmente dedicado a Penélope (Anne Hathaway): a estadia com Calypso (Charlize Theron) deixa de ser um romance e passa a ser o resultado do consumo de flores de lótus que alimentam o bloqueio de memória do protagonista. Inspirada na linha inicial da tradução de Emily Wilson ("Conta-me sobre um homem complicado"), esta abordagem expande a definição de masculinidade e olha para o maior feito do herói através de uma nova lente.
É uma reviravolta académica sobre uma história de regresso a casa, mas [também] sobre esta personagem que, muito como Oppenheimer, luta com o preço da sua engenhosidade e o que isso vai significar para o mundo.O Cavalo de Tróia, por mais engenhoso que fosse, é um truque em violação direta da lei de Zeus. É apresentado como um presente e uma oferenda de paz — mas, obviamente, está cheio de soldados. Naturalmente, sabendo que o mundo foi lançado em quatro séculos de escuridão logo após o final desta história — há muito por onde explorar tematicamente, e [pode-se] traçar comparações e linhas a partir daí.
- Matt Damon, Letterboxd
O passado que une Sinon e Antinous

Uma das inovações mais marcantes do argumento envolve dois personagens que nem fazem parte da mesma história. O líder dos pretendentes Antinous (Robert Pattinson) e Sinon (Elliot Page), que nem sequer faz parte do poema de Homero, surgindo originalmente na Eneida de Virgílio, ganham uma origem completamente reescrita e entrelaçada.
Quando eram jovens, Antinous promete sustentar o pai de Sinon se este tomar o lugar dele no recrutamento para a Guerra de Troia. Sinon é o encarregado por entregar o cavalo de Troia, sem saber o que realmente ele traz. Na sequência do submundo, é Sinon quem confronta Odysseus, e não Aquiles.
Outro detalhe interessante é que no poema original Antinous é o primeiro a morrer com uma flecha no pescoço, mas a longa-metragem guarda a sua morte para o satisfatório clímax.
"Ninguém" fez a icónica piada

No poema de Homero, não existe apenas um ciclope, mas sim toda uma ilha habitada por eles. No entanto, tal como no filme, Odysseus e os seus homens passam a maior parte do tempo com Polyphemus (Bill Irwin). Odysseus diz astutamente ao ciclope que o seu nome é "Ninguém", pelo que, quando cega o monstro espetando-lhe uma estaca no olho, Polyphemus grita de dor: "Ninguém enganou-me, Ninguém arruinou-me!".
Depois de escaparem da caverna, Odysseus é tomado pela presunção e quer tomar o crédito pelo seu truque, dizendo a Polyphemus que, se alguém perguntar, foi Odysseus quem lhe tirou o olho. Ao revelar o seu nome, Odysseus torna-se o alvo da ira de Poseidon, o pai de Polyphemus, e tudo desmorona a partir daí.
A famosa cena em que Odysseus engana Polyphemus foi totalmente cortada do argumento.
É um trocadilho. Os trocadilhos em tradução são difíceis. Tentei. Não foi possível incluí-lo
- Christopher Nolan, The Daily Show
Um desfecho diferente

No poema de Homero, a narrativa termina com a intervenção divina de Atena a impor a paz entre Odysseus e as famílias enfurecidas dos pretendentes (lideradas por Eupeithes, o pai de Antinous).
Na versão de Christopher Nolan, os deuses desaparecem e o realizador opta por um final humano: após matar os pretendentes e enfrentar as consequências por violar a lei da hospitalidade de Zeus, Odysseus condena-se a si próprio ao exílio. Penélope junta-se a ele e partem juntos numa viagem rumo ao horizonte , enquanto Telemachus fica para trás como o novo rei de Ítaca.
Sabia destas alterações que Nolan fez na adaptação? A Odisseia já está disponível nos cinemas... Leia aqui a nossa crítica!
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